Tema: GESTÃO DO TRABALHO E DA EDUCAÇÃO NA SAÚDE
Autor(a)
Brigida Alves da Silva Sousa
Coautor(es)
Sibele Lopes Goes
Magna Pinto Madeiro
Itatiaia Fernandes Barbosa
Tatyana Nunes Duarte
Maria das Candeias Lima de Menezes
Walenya Arruda Braga
Wladenise Cavalcante de Aquino
Ianny de Assis Dantas Diogenes
Vanuza Cosme Rodrigues
Arianne Maia Silva
A Residência Multiprofissional em Saúde (Resmulti) foi criada no Brasil em 2005, por meio da Lei nº 11.129, com o objetivo de qualificar profissionais da saúde dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Ela é voltada para diversas áreas como enfermagem, fisioterapia, nutrição e psicologia, promovendo o trabalho em equipe e a formação prática nos serviços de saúde. A iniciativa é regulamentada pela Comissão Nacional de Residência Multiprofissional em Saúde e foi adotada por instituições como a Escola de Saúde Pública do Ceará, contribuindo para fortalecer a formação integrada e voltada às necessidades da população. De acordo com o manual do residente, a Residência Integrada em Saúde - RIS-ESP/CE é um Programa de caráter interfederativo, interinstitucional, interprofissional, intersetorial e interiorizado. Foi concebida em 2011/2012 inaugurada em 2013 e sua condução Ética-Política-Pedagógica é pela Escola de Saúde Pública do Ceará. Tem como objetivo “Ativar-Capacitar lideranças técnicas, científicas e políticas por meio da interiorização da Educação Permanente Interprofissional, na perspectiva de contribuir para a consolidação da carreira na saúde coletiva e para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde Cearense”. Nessa perspectiva, o município de Jaguaribe/CE fez a solicitação para integrar a execução da RIS com ênfase em Saúde da Família e Comunidade. Jaguaribe tem uma população estimada, em 2025, de 35.143 habitantes, segundo IBGE. Conta com 14 Equipes da Estratégia Saúde da Família-ESF, as quais contemplam 100% de cobertura da Atenção Primária à Saúde no município. Em 2025, a ESP fez a convocação para inserir Jaguaribe na execução da RIS solicitada, o que trouxe novas perspectivas no território da APS. Assim, o processo de ensino aprendizagem, bem como a atuação dos profissionais e residentes foram se conformando em um espaço vivo, onde a prática teoria prática foi vislumbrada por todos os envolvidos.
Objetivos Gerais: Apresentar o impacto da inserção da Residência Multiprofissional em Saúde da Família na organização do processo de trabalho e na qualificação da atenção em um município de pequeno porte do interior do Ceará. Objetivos específicos: • Descrever o processo de inserção dos residentes multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde do município •Identificar as principais ações desenvolvidas pelos residentes no território (assistenciais, educativas e intersetoriais) •Analisar as contribuições da residência para o fortalecimento do trabalho interdisciplinar na Estratégia Saúde da Família •Apontar desafios e potencialidades da implementação da residência em municípios de pequeno porte.
Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido a partir da vivência da primeira turma da Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade da Escola de Saúde Pública do Ceará, inserida no município de Jaguaribe-CE, no período de março de 2025 a março de 2026. Foram definidos quatro residentes das áreas de Enfermagem, Psicologia, Odontologia e Nutrição para atuar de forma integrada na Atenção Primária à Saúde, especialmente na Estratégia Saúde da Família em Jaguaribe. Foi necessário realizar um momento de apresentação da RIS junto as ESF, com o objetivo de que todos os profissionais compreendam e colaborem com essa integração ensino-serviço e construa-se um espaço coletivo de diálogo e aprendizagens. Com isso foram definidas 02 ESF para atuação direta dos residentes, os quais passaram a se integrar aos profissionais e vislumbrar um novo fazer a partir da realidade local, mas direcionado pela ciência. Houve um compartilhamento do diagnóstico do território, socializando o contexto da situação de saúde da área adscrita, identificando nós críticos e prioridades que fundamentaram o planejamento das ações em saúde pela equipe e residentes. Nessa análise percebeu-se que algumas atividades de promoção e prevenção à saúde deveria ser reinserida no processo de trabalho das ESF como oportunidade de trabalhar os nós críticos e prioridades do território. A exemplo pode-se mencionar o desenvolvimento de grupos operativos (hipertensos, gestantes, saúde mental). Comungou-se que a implementação da prática do matriciamento era necessário, tendo em ampliar a capacidade de cuidado sem encaminhar automaticamente o paciente para outro serviço. Essa foi também uma atividade alavancada pelos residentes em consonância com os profissionais da ESF. Relata-se ainda que os residentes conseguiram identificar outros setores e/ou instituições no território da APS que são parceiros no compartilhamento de ações relacionadas aos determinantes do processo saúde doença. O fazer da RIS no território é dinâmico, transversal, intersetorial e de grande relevância para a população descrita.
A inserção da residência multiprofissional promoveu mudanças significativas no processo de trabalho das equipes da Atenção Primária, evidenciando a ampliação do cuidado ofertado à população. Observou-se o fortalecimento de ações de promoção da saúde, prevenção de agravos, estratégias que contribuíram para maior vínculo com a comunidade e melhor acompanhamento longitudinal dos usuários. Essa prática é desenvolvida por todos os profissionais da ESF na perspectiva de contextualizar os determinantes sociais e encorajar o auto cuidado, a participação popular e a integração da equipe, construindo laços de confiança, zelo e empatia. No âmbito do matriciamento, os residentes atuaram como suporte técnico-pedagógico às equipes, favorecendo a troca de saberes e a qualificação das práticas assistenciais, o que resultou em maior resolutividade da APS e redução de encaminhamentos desnecessários para níveis secundários. A atuação interprofissional possibilitou a construção de planos terapêuticos mais integrais, considerando aspectos biológicos, psicológicos e sociais dos usuários. Pontua-se que houve ainda interação com as escolas para desenvolvimento do Programa Saúde na Escola. Salutar também que casos específicos foram socializados com o CRAS, o qual atua na proteção social básica, com foco na prevenção de vulnerabilidades, e também com o CREAS, sendo que esse centro já atua na proteção social especial, com casos de violação de direitos. Entendeu-se que o território é o mesmo, mas a atuação precisa ser coletiva, onde vários saberes se entrelaçam e fortalecem a população contribuindo para uma melhor qualidade de vida dos envolvidos. Como desafios, destaca-se limitações estruturais, resistência inicial de alguns profissionais, e necessidade de maior compreensão da residência como estratégia de educação permanente, e não apenas força de trabalho. No entanto, ao longo do processo, observou-se maior integração entre residentes, equipes e gestão.
A Residência Multiprofissional em Saúde da Família demonstrou potencial transformador na organização do processo de trabalho e na qualificação da atenção em município de pequeno porte. Sua inserção favoreceu a ampliação do acesso, a integralidade do cuidado, o fortalecimento do trabalho interdisciplinar e a articulação intersetorial, contribuindo para maior resolutividade da Atenção Primária à Saúde. Além disso, configura-se como estratégia relevante para a fixação de profissionais e fortalecimento do Sistema Único de Saúde em territórios com maior vulnerabilidade. Ressalta-se a importância do apoio da gestão municipal e da consolidação da residência como dispositivo de educação permanente em saúde. Contudo percebe-se que a atuação dos RIS perpassa também por encorajar aos profissionais da APS a modificar o processo de trabalho, fundamentar o fazer cientificamente e assim, contribuir para que ações e estratégias estejam em consonância com as necessidades da população adscrita. Recomenda-se que a ESP possa ampliar a RIS nos territórios cearenses e possa qualificar cada vez mais serviços e profissionais, pois mudança de paradigma requer uma força tarefa conjunta, coletiva.