Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
YURE HERMERSON PEREIRA LIMA
Coautor(es)
VILALBA CARLOS LIMA MARTINS BEZERRA
JONAS LOIOLA GONÇALVES
CRISTIANI NEVES FEITOSA
MARIA ACREZIANE LOPES DA SILVA
SAYONARA MOURA DE OLIVEIRA CIDADE
O município de Tauá implantou a retinografia como estratégia de rastreio de alterações oculares na Atenção Primária à Saúde (APS), com ênfase na população adscrita da Estratégia Saúde da Família (ESF) Quilombola. A iniciativa surgiu da necessidade de qualificar o cuidado às pessoas com hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus, condições altamente prevalentes no território e associadas a complicações microvasculares silenciosas, potencialmente incapacitantes e evitáveis quando diagnosticadas precocemente. A população quilombola apresenta maior vulnerabilidade social e barreiras históricas de acesso à atenção especializada. Nesse contexto, a incorporação da retinografia digital na APS fortalece a equidade, amplia o acesso ao diagnóstico precoce e qualifica a organização da rede de atenção. A experiência fundamenta-se nos princípios do SUS — universalidade, integralidade e equidade — ao ampliar o acesso ao cuidado especializado por meio da coordenação efetiva da APS.
Objetivo Geral: Implantar e consolidar a retinografia na APS como estratégia de rastreio, estratificação de risco e organização do cuidado oftalmológico na população adscrita à ESF Quilombola. Objetivos Específicos: Detectar precocemente alterações retinianas associadas à hipertensão e ao diabetes. Identificar suspeitas de glaucoma para encaminhamento oportuno. Qualificar a regulação e reduzir encaminhamentos desnecessários. Produzir dados epidemiológicos locais para subsidiar o planejamento em saúde.
Trata-se de uma experiência exitosa desenvolvida na APS do município de Tauá, com foco na população adscrita à ESF Quilombola. Foram realizadas 154 retinografias na população adscrita pela Estratégia Saúde da Família Quilombola, priorizando usuários com diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, idosos e indivíduos com queixas visuais ou tempo prolongado de doença crônica. A estratégia contemplou: Identificação ativa dos usuários elegíveis pela equipe multiprofissional. Realização da retinografia digital na própria APS. Emissão de laudos especializados. Classificação de risco clínico. Definição de conduta (acompanhamento na APS ou encaminhamento regulado para oftalmologia). Monitoramento dos encaminhamentos e contrarreferência. Os exames considerados impossíveis de laudar bilateralmente foram reavaliados para repetição ou encaminhamento conforme indicação clínica.
Das 154 retinografias realizadas: 12% foram consideradas impossíveis de laudar bilateralmente. Entre os exames avaliáveis, observou-se: Retinopatia hipertensiva: 71%. Suspeita de glaucoma (escavação aumentada): 18%. Exames normais: 15%. Retinopatia diabética: 1% (apenas na forma leve). Drusas: 4%. Alterações pigmentares ou uveíte prévia: 9%. Destaca-se que 32% dos participantes necessitaram encaminhamento para atendimento oftalmológico presencial, demonstrando que a retinografia atuou como instrumento qualificador da regulação, permitindo priorização de casos com maior risco e evitando encaminhamentos indiscriminados. Os achados evidenciam elevada carga de dano microvascular associada à hipertensão na população avaliada, sinalizando necessidade de intensificação das ações de controle pressórico e acompanhamento longitudinal na APS. A baixa prevalência de retinopatia diabética sugere diagnóstico precoce ou menor tempo de evolução da doença, reforçando a importância do rastreio sistemático como estratégia preventiva.
A implantação da retinografia na APS da ESF Quilombola de Tauá demonstrou ser estratégia efetiva para ampliação do acesso, rastreio precoce e organização do cuidado oftalmológico. A alta prevalência de retinopatia hipertensiva (71%) reforça a necessidade de fortalecimento das ações de manejo das condições crônicas na APS, especialmente em territórios vulnerabilizados. A experiência evidencia o papel da Atenção Primária como coordenadora do cuidado, utilizando tecnologia leve-dura para promover equidade, integralidade e racionalização da rede especializada. Trata-se de iniciativa de baixo custo, alto impacto sanitário e potencial de replicabilidade, contribuindo para prevenção de cegueira evitável e fortalecimento da Rede de Atenção à Saúde no SUS.