Tema: MODELO DE ATENÇÃO À SAÚDE
Autor(a)
Tamara Deyse Lins Pinheiro
Coautor(es)
Wendelmar Magalhães Pires
Sheila Cyrino Câmara
Ana Ciléia Pinto Teixeira Henriques
Maria Cleonice dos Santos Caldas
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) caracteriza-se por prejuízos persistentes na comunicação e na interação social, associados a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. No cotidiano, observa-se que muitas crianças com TEA apresentam dificuldades na realização de atividades básicas, o que aumenta o grau de dependência em relação aos pais e cuidadores. Diante dessa realidade, as famílias precisam reorganizar sua rotina e desenvolver novas estratégias para lidar com as demandas do cuidado, frequentemente sem o suporte prático necessário, o que pode gerar insegurança e sobrecarga. Em encontros realizados semestralmente no Centro Especializado em Reabilitação de Maranguape-CE, no qual as famílias relatam aspectos da evolução das crianças atendidas no serviço, notamos uma dor comum: a insegurança do manejo diário, a dificuldade de lidar com crises e situações cotidianas por falta de experiência prática, gerando sobrecarga emocional e barreiras no desenvolvimento da criança fora do ambiente clínico. Diante deste contexto, foi pensando o projeto Roda Azul iniciado em outubro de 2025, no qual são realizados encontros quinzenais com as famílias, no formato de roda de conversa, possibilitando um espaço seguro para troca de experiências, onde as mães trazem os desafios reais e os profissionais oferecem suporte técnico. Para contemplar uma abordagem integral às demandas no TEA, o projeto conta com uma abordagem interdisciplinar, com intervenções de psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e nutricionista, além da psicopedagogia, com a abordagem do desenvolvimento cognitivo e suporte social. No tocante às questões jurídicas, contamos com a participação de advogado e assistente social, os quais abordam informações sobre direitos e cidadania. O projeto segue em execução, buscando atender as demandas das famílias e cuidadores identificadas a partir da escuta ativa dos que tanto precisam de um olhar de cuidado neste contexto desafiador.
Objetivo geral: Relatar a experiência do projeto Roda Azul, o qual visa fortalecer o cuidado de crianças com TEA atendidas no CER, por meio do fortalecimento do cuidar pelas famílias. Objetivos específicos: Abordar estratégias e técnicas práticas para lidar com comportamentos disruptivos e crises de desregulação emocionais e sensoriais no TEA Orientar sobre direitos legais, nutrição seletiva e desenvolvimento neuropsicomotor Promover o acolhimento mútuo entre as mães e a troca de vivências, reduzindo assim o isolamento social e a sobrecarga emocional Tornar os pais mais independentes e capazes de antecipar crises de ansiedade Alinhar as condutas terapêuticas do centro de reabilitação com as práticas executadas no ambiente doméstico.
As atividades são realizadas no CER, por meio de encontros presenciais quinzenais. A metodologia utiliza o formato de roda de conversa, estruturada em três momentos: inicialmente, um espaço de escuta, no qual as famílias compartilham a evolução das crianças e as dificuldades vivenciadas no cotidiano em seguida, ocorre a abordagem de uma temática relevante por profissional convidado da rede municipal por fim, realiza-se um momento de debate voltado à aplicação prática do conteúdo na realidade de cada família. O projeto conta com uma equipe multiprofissional, composta por profissionais da Psicologia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Nutrição, Psicopedagogia, além de apoio do campo jurídico e da assistência social, garantindo uma abordagem integral. Foram organizados ciclos de oito encontros, contemplando os eixos Saúde, Educação e Direitos. O primeiro encontro foi destinado à construção coletiva do cronograma, considerando as demandas das mães. Nos encontros seguintes, foram abordadas temáticas específicas: manejo de crises e regulação emocional (Psicologia) seletividade alimentar e estratégias de adaptação (Nutrição) estímulo à comunicação e uso de recursos alternativos (Fonoaudiologia) organização da rotina, estímulos sensoriais e promoção da autonomia (Terapia Ocupacional). Também foram discutidos direitos da pessoa com TEA, incluindo acesso à saúde, educação e transporte, além de orientações sobre inclusão escolar e legislação vigente. Em parceria com o CRAS e a Assistência Social, abordou-se o acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), critérios e acompanhamento das famílias. Por fim, o oitavo encontro foi destinado ao encerramento, com roda de conversa para compartilhamento de vivências, avaliação da experiência e fortalecimento da rede de apoio entre as participantes.
A implementação do Projeto Roda Azul consolidou-se como uma ferramenta de transformação no CER, apresentando resultados que transcendem o suporte técnico e atingem a esfera do acolhimento humano. Os principais resultados observados foram o fortalecimento do vínculo e suporte emocional, com os encontros revelando-se um espaço vital de segurança psicológica. Os relatos colhidos com as dez famílias que participaram da primeira edição do projeto indicam que as rodas de conversa proporcionaram um momento raro de "extravasamento emocional". A dinâmica permitiu que as mães compartilhassem suas dores e desafios sem julgamentos, resultando em momentos de catarse onde o choro e o desabafo serviram como ferramentas de alívio e renovação. Essa troca de experiências validou os sentimentos dessas famílias, combatendo o isolamento social comum no cuidado de crianças atípicas. O projeto cumpriu seu papel educativo ao levar informações de alta qualidade técnica e forma acessível. A presença de uma equipe multiprofissional diversificada permitiu o esclarecimento de dúvidas em tempo real, transformando o conhecimento científico em ferramentas práticas de manejo cotidiano. As mães reportaram uma sensação de maior empoderamento e segurança para conduzir as rotinas de seus filhos após as orientações recebidas. Institucionalmente, o Roda Azul fortaleceu o papel do SUS e do Município como agentes de cuidado integral. O projeto demonstrou que a assistência à saúde da criança com TEA não termina na terapia individual, mas se estende ao suporte à sua rede de apoio. O maior ganho institucional foi a percepção, por parte das famílias, de que o poder público oferece um suporte presente e contínuo.
Conclui-se que o Projeto Roda Azul preencheu uma lacuna crítica na reabilitação, provando que o acolhimento aos cuidadores é indissociável do sucesso do tratamento da criança. O projeto reafirma o compromisso do município com uma saúde pública humanizada, técnica e sensível às complexidades do universo autista. Famílias mais capacitadas tendem a colaborar de forma mais assertiva com o plano terapêutico, potencializando os resultados clínicos das crianças atendidas na rede municipal. O projeto segue em andamento, contando com a colaboração dos profissionais da própria rede, corroborando sua sustentabilidade enquanto estratégia passível de multiplicação em outras realidades.