Tema: SAÚDE MENTAL
Autor(a)
JANAÍNA MATEUS TEIXEIRA
Coautor(es)
ALINE MARIA FURTADO DE CARVALHO
ANTONIA LEIDIANE CUNHA PEREIRA
KELLE ROSSANNE LINHARES PAULO
ALOISIO CALIXTO DE SOUZA JUNIOR
MARIA SUSANA FERNANDES
A experiência subjetiva do luto caracterizada por um conjunto multidirecional de respostas biopsicossocias diante do rompimento de um vínculo significativo, requer por parte dos profissionais de saúde um olhar atento aos elementos internos e externos da pessoa enlutada. Sobretudo, quando a escassez de recursos psíquicos, cognitivos e sociais influenciam em um processo de luto prolongado que impede a pessoa de retornar suas atividades com qualidade, caracterizando-se um processo de luto complicado. No cenário das mídias sociais ainda há pouco espaço para construção de relações genuinamente acolhedoras. Assim, lançar mão de estratégias de cuidado para auxiliar na elaboração do processo de luto de forma saudável tem sido objetivo das equipes de saúde. Grupos de apoio a pessoas enlutadas desenvolvidos no território em que as pessoas vivem facilitam através do compartilhamento de suas experiências o enfrentamento desse processo de forma significativa. As equipes de saúde da família que atuam na Rede de Atenção Psicossocial do município de Reriutaba tendo o serviço CAPS como ordenador da mesma rede, enfrentam o desafio de lidar com uma significativa demanda de sofrimento mental decorrente de lutos diversos. Dessa forma, oferecer suporte grupal as essas pessoas enlutadas surge como uma proposta pioneira no município de acolher e proporcionar um espaço de escuta que auxilie essas pessoas a serem protagonistas da ressignificação dos seus projetos de vida.
Objetivo geral: Relatar a experiência de um grupo de pessoas enlutadas conduzido a partir da parceria das equipe de profissionais que atuam no CAPS e eMulti do município de Reriutaba-CE. Objetivos específicos: - Realizar levantamento da demanda de pacientes com perfil de luto complicado atendidos no CAPS e Atenção Básica - Desenhar uma proposta de formação grupal com abordagem multiprofissional e apresentá-la aos participantes previamente selecionados - Possibilitar o compartilhamento das vivências do luto através de oficinas com recursos diversificados - Propor a ritualização do luto através de oficinas através da construção de cartas e pinturas - Estabelecer metas de enfrentamento a partir das necessidades individuais dos participantes.
Trata-se de um Relato da Experiência de um Grupo Operativo intitulado Laços, voltado para pessoas enlutadas, desenvolvido a partir da parceria das equipes eMulti e CAPS do município de Reriutaba, Ceará. A proposta foi norteada pela premissa que uma parcela significativa de pacientes acompanhados individualmente pelos psicólogos dessas equipes apresentam queixas relacionadas a perdas de familiares. Assim, elegeu-se como critérios para inclusão no grupo: aqueles paciente que vinham realizando psicoterapia na atenção básica e no CAPS com demandas disfuncionais e prolongadas relacionadas a luto parental ou mortes trágicas e/ou inesperadas. Descartaram-se os casos de luto antecipatório e fetal. Elegeram-se 20 participantes que foram convidados para apresentação da proposta e levantamento dos interessados. Ressaltando que a recusa não implicaria na continuidade do cuidado que seguiria ocorrendo em outro formato, conforme a necessidade do paciente, sem resultar em prejuízos para os mesmos. Pactuado o grupo fechado com encontros semanais ocorridos às sextas-feiras. Totalizando até o presente momento: 11 encontros, tendo 7 ocorridos na sala de atividade coletiva da academia de saúde, 01 no ginásio poliesportivo, 03 no CAPS e 2 na piscina do Centro de Reabilitação. Inicialmente, foi aplicado um formulário para analisar o perfil dos participantes e assim direcionar as oficinas. Em cada momento foi feito registro fotográfico e diário de campo, mediante consentimento de todos.
O grupo de apoio ao luto busca favorecer a compreensão do processo de despedida e auxiliar na construção de uma nova realidade a partir da troca de experiências entre pessoas que estão vivenciando a dor da perda. Evidências apontam vários aspectos da vida dos enlutados atingidas durante esse processo. Manifestações emocionais (tristeza, culpa, solidão), cognitivas (perda de memória e concentração), comportamentais (choro, isolamento) ou fisiológicas (fadiga, sono) são esperadas em menor ou maior escala. Cientes dessas manifestações a equipe optou por estratégias de expressão emocional (diário, cartas), expressão pela arte (desenho e pintura), atividades corporais (relaxamento), estabelecimento de pequenas metas para enfrentamento dos aspectos que bloqueiam ou retardam a retomada de rotinas e planos de vida. Entre os bloqueios citados como superados pelos participantes temos como manifestações comportamentais a participação em eventos sociais, participação em festas de final de ano, viajar para outras cidades, participação em passeios coletivos. Manifestações emocionais: uma participante afirma estar sentido a saudade de forma menos dolorida e percebendo a culpa perder a força a cada dia e outra que havia prometido ao falecido pai cuidar da mãe, afirmou ter conseguido aceitar uma viagem da genitora. O sentimento de partilha e segurança com os demais participantes é mencionado por todos, além do estabelecimento de rotina de encontros muito pontuado pelo grupo.
Uma pergunta geradora para a equipe foi como lidar com despedidas em ações grupais sendo o brasileiro tão gregário? No Brasil tudo culmina em encontros, a família é citada em argumentos e num período pandêmico nos queixávamos da falta de abraços. Nosso povo não aceita separações o que nos fez pensar que a premissa de não julgar a dor do outro como maior que a sua, utilizada em acordos de grupo terapêutico não se fazia necessária, compreender essa dor nos é inerente. O planejamento é sistematizado por encontros presenciais e em grupo virtual. A elaboração dos instrumentais, forma de registro de sessões, materiais utilizados e técnicas foram discutidas desde o princípio pelo grupo operativo, bem como a decisão de trabalho em dupla por sessão. Compreendendo que o cuidado psicossocial vai muito além das equipes CAPS e EMULTI a equipe do Laços pretende confeccionar uma cartilha orientadora de suporte ao luto e realizar junto as equipes da atenção básica formações sobre o tema. O luto problemático pode desencadear uma desestabilização em um grupo familiar tamanha é a força das emoções envolvidas e a construção de espaços diversos de acolhimento mostra-se para nós com uma alternativa para lidar com esses eventos.