Tema: MODELO DE ATENÇÃO À SAÚDE
Autor(a)
FRANCISCO BRUNO ANASTACIO DA SILVA
Coautor(es)
Francisco Bruno Sousa Lima
Larissa Laura Guerra Guimaraes
Antonio Junior de Vasconcelos Gualberto
Marilia Ramos Eduardo
A Atenção Primária à Saúde (APS) desempenha papel fundamental na coordenação do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo responsável pela promoção da saúde, prevenção de agravos e acompanhamento longitudinal dos usuários. Nos últimos anos, observa-se aumento significativo das demandas relacionadas ao sofrimento psíquico leve e moderado nos territórios, o que tem desafiado os serviços de saúde a ampliar estratégias de cuidado em saúde mental no âmbito da APS. No município de Itaitinga, Ceará, essa realidade evidenciou a necessidade de fortalecer abordagens territoriais capazes de acolher e acompanhar usuários com transtornos mentais comuns, reduzindo encaminhamentos desnecessários para serviços especializados e ampliando a resolutividade das Unidades Básicas de Saúde (UBS). Nesse contexto, a psicologia passou a atuar como importante dispositivo de cuidado na rede de atenção, contribuindo para a construção de estratégias de promoção da saúde mental e prevenção de agravos. A experiência foi desenvolvida nas UBS do município, tendo como público-alvo usuários com sofrimento psíquico leve e moderado, adolescentes em situação de vulnerabilidade social e idosos em contexto de isolamento. A proposta buscou fortalecer o matriciamento entre as equipes da Estratégia Saúde da Família e a equipe multiprofissional da Atenção Primária (eMulti), além de estimular ações coletivas e intersetoriais no território. A iniciativa fundamenta-se na perspectiva de desmedicalização do sofrimento cotidiano, valorização do cuidado comunitário e ampliação do acesso a práticas terapêuticas integrativas e coletivas, fortalecendo o vínculo entre profissionais de saúde e comunidade e promovendo maior autonomia dos sujeitos no cuidado com sua saúde mental.
Objetivo Geral Implementar estratégias de promoção da saúde mental e prevenção de agravos no território por meio da atuação da psicologia na Atenção Primária à Saúde, fortalecendo o cuidado comunitário e a resolutividade das Unidades Básicas de Saúde no município de Itaitinga/CE. Objetivos Específicos * Estimular a criação de grupos terapêuticos e espaços de apoio mútuo nas Unidades Básicas de Saúde. * Fortalecer o matriciamento entre as equipes da Estratégia Saúde da Família e a equipe multiprofissional da Atenção Primária (eMulti). * Promover articulação intersetorial com as áreas de assistência social e educação para desenvolvimento de ações no território. * Ampliar o acesso a práticas integrativas e estratégias coletivas de cuidado, contribuindo para redução da medicalização excessiva.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido nas Unidades Básicas de Saúde do município de Itaitinga/CE, no âmbito das ações da Atenção Primária à Saúde. A implementação das estratégias de cuidado em saúde mental foi estruturada em quatro etapas principais. A primeira etapa consistiu no diagnóstico territorial, com identificação de áreas com maior incidência de sofrimento psíquico, vulnerabilidade social e demandas relacionadas à saúde mental, a partir da análise de dados da APS e das observações das equipes da Estratégia Saúde da Família. Na segunda etapa foi realizada educação permanente com profissionais das equipes de Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde, abordando acolhimento, escuta qualificada e manejo inicial de usuários com sofrimento psíquico leve e moderado. A terceira etapa envolveu a implementação de ações coletivas e práticas integrativas no território, incluindo grupos de caminhada orientada, rodas de conversa, atividades de arteterapia e práticas de auriculoterapia como estratégia complementar ao cuidado. As atividades ocorreram em Unidades Básicas de Saúde e espaços comunitários, como praças e associações locais. A quarta etapa consistiu na organização de fluxos intersetoriais e articulação com outros setores da rede de proteção social. Foram instituídas reuniões periódicas com equipamentos da assistência social, como o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), e instituições educacionais do território para discussão de casos complexos e construção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS). Entre os instrumentos utilizados destacam-se prontuário eletrônico, guias de encaminhamento humanizado, registros das atividades coletivas e reuniões de matriciamento entre as equipes da Estratégia Saúde da Família e a eMulti.
A implementação das estratégias de cuidado em saúde mental na Atenção Primária resultou em avanços importantes na organização da rede de cuidado no município. Entre os principais resultados observou-se redução aproximada de 30% nos encaminhamentos desnecessários para serviços especializados, especialmente para o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), evidenciando maior resolutividade das Unidades Básicas de Saúde. Também foi identificado aumento significativo da adesão dos usuários a abordagens terapêuticas não farmacológicas, como participação em grupos terapêuticos, práticas corporais e atividades comunitárias. Os participantes relataram melhora na qualidade de vida, redução de sintomas ansiosos e fortalecimento das redes de apoio social no território. A integração entre as equipes da Estratégia Saúde da Família e a equipe multiprofissional da Atenção Primária possibilitou ampliação das ações de matriciamento, alcançando a maioria das equipes do município. Esse processo contribuiu para qualificação do manejo de casos de saúde mental na APS e fortalecimento da atuação interdisciplinar. Do ponto de vista da gestão, a reorganização dos fluxos de cuidado favoreceu melhor utilização dos recursos disponíveis, ampliando o acesso às ações de saúde mental e consolidando a Unidade Básica de Saúde como principal porta de entrada e acompanhamento dos casos de menor complexidade.
A experiência evidenciou que a inserção de ações de saúde mental no território é fundamental para ampliar o acesso e garantir cuidado integral aos usuários do Sistema Único de Saúde. Entre os principais aprendizados, destaca-se a compreensão de que estratégias baseadas no lazer, na convivência comunitária e na construção de vínculos constituem dispositivos potentes para promoção do bem-estar e fortalecimento do cuidado psicossocial. A sustentabilidade da iniciativa mostra-se viável devido à baixa necessidade de insumos financeiros e ao elevado engajamento dos profissionais da rede municipal, favorecendo a continuidade das ações no cotidiano da Atenção Primária à Saúde. Além disso, a articulação entre equipes multiprofissionais e serviços do território contribui para a consolidação de práticas colaborativas e para o fortalecimento da rede de atenção. A experiência apresenta elevado potencial de replicabilidade em outros municípios cearenses, uma vez que se baseia na reorganização do processo de trabalho e na valorização de recursos já existentes na rede. Como contribuição ao Sistema Único de Saúde, a iniciativa fortalece a Rede de Atenção Psicossocial, reafirma o papel estratégico da Atenção Primária como coordenadora do cuidado e promove práticas de atenção mais humanizadas, ampliando a participação social e a promoção da cidadania.