Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Marcelo da Silva Firmino
Coautor(es)
A experiência “Saúde na Feira” é realizada mensalmente, aos sábados, na tradicional Feira de São Bento, no município de Cascavel, Ceará, localizado na Região Metropolitana de Fortaleza, com população estimada em 72.720 pessoas. Iniciada em 24 de janeiro de 2026, a ação possui caráter contínuo. Reconhecida como a maior feira ao ar livre do estado e a segunda maior do Brasil, ocupa papel central no cotidiano da população, com relevância econômica, social e cultural. Mais que espaço de comercialização, constitui importante rede de sociabilidades. Para feirantes e frequentadores, representa fonte de renda, meio de sobrevivência e oportunidade de economia, além de ponto de encontro e fortalecimento de vínculos. As pessoas não vão à feira apenas para comprar ou vender, mas também para conversar, compartilhar refeições e vivenciar momentos de integração comunitária. Nesse contexto, a iniciativa insere-se como estratégia de ampliação do acesso à Atenção Primária à Saúde (APS), aproximando o cuidado da população em ambiente já reconhecido como espaço de confiança. A estratégia busca alcançar feirantes, idosos, trabalhadores, pessoas em situação de vulnerabilidade social e população com baixa adesão às Unidades Básicas de Saúde (UBS), ofertando parte dos serviços disponibilizados pelas unidades de forma mais acessível. A iniciativa baseia-se nos princípios da APS e é orientada pelo território, seguindo conceitos de universalidade, acessibilidade, continuidade do cuidado, integralidade da atenção, responsabilização, humanização e equidade, promovendo cuidado próximo à realidade cotidiana da população. Nesse contexto, a proposta fundamenta-se na redução de barreiras organizacionais e territoriais, ampliando o acesso às ações de promoção da saúde, prevenção de agravos, diagnóstico precoce e cuidado integral ofertadas pela Atenção Básica, porta preferencial de entrada no sistema de saúde.
O objetivo geral da experiência é ampliar o acesso da população de Cascavel à Atenção Primária à Saúde, utilizando espaço comunitário de grande circulação como estratégia para aproximar os usuários do cuidado e das ações preventivas. Os objetivos específicos incluem ofertar vacinação, aferição de pressão arterial, verificação de glicemia capilar, testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites virais, além de práticas integrativas e complementares, em ponto estratégico do território identificar precocemente alterações nos parâmetros clínicos e resultados reagentes nos testes rápidos, assegurando orientação e encaminhamento para acompanhamento na unidade de saúde ampliar o acesso aos serviços de saúde para a população com dificuldade de comparecimento em horário convencional incentivar o autocuidado e a prevenção das infecções sexualmente transmissíveis por meio de ações educativas fortalecer o vínculo entre profissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF), da Equipe Multiprofissional (eMulti) e da comunidade.
A ação ocorre mensalmente, mediante planejamento prévio organizado pela coordenação da APS, em articulação com as equipes da ESF e da eMulti, com possibilidade de revezamento de profissionais a cada edição. Há articulação com a coordenação da feira para apoio logístico, com o Serviço de Assistência Especializada em DST/HIV/AIDS (SAE) para disponibilização dos testes rápidos e com o almoxarifado da Secretaria Municipal de Saúde para fornecimento de insumos. A divulgação é realizada pelas redes sociais institucionais, em articulação com a equipe de comunicação, ampliando o alcance da informação e estimulando a participação comunitária. No local, instala-se estrutura provisória com tenda, biombos, macas, mesas, cadeiras, kit ventosas e demais insumos necessários à execução dos atendimentos, além de caixa de som com músicas, atraindo e mobilizando os frequentadores da feira a participarem. Contam com a participação de técnicos de enfermagem, enfermeiros, fisioterapeutas e educadores físicos. São ofertadas práticas integrativas, como ventosaterapia, além de procedimentos como aferição de pressão arterial, verificação de glicemia capilar, vacinação, testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C e distribuição de preservativos. O fluxo de atendimento contempla acolhimento por demanda espontânea, execução dos procedimentos, registro das informações e orientação individualizada. Nos casos de testagem para infecções sexualmente transmissíveis, todo o processo é conduzido com sigilo e confidencialidade, e os usuários com resultados reagentes são orientados e encaminhados à unidade de saúde de referência, com registro de contato para garantia de acompanhamento e confirmação diagnóstica. Demais alterações clínicas identificadas, como pressão arterial ou glicemia alteradas, também recebem orientação e encaminhamento para seguimento, quando necessário. O processo inclui planejamento, execução territorial e avaliação posterior, permitindo ajustes contínuos e qualificação progressiva das edições subsequentes.
A iniciativa amplia o acesso às ações preventivas no município. A edição realizada em 28/02/2026 contabilizou 167 aferições de pressão arterial, 165 testes de glicemia capilar, 200 testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis (IST), 23 doses de vacinas e 23 sessões de ventosaterapia, fortalecendo a oferta de cuidados assistenciais e preventivos e o vínculo entre serviços de saúde e população. A ação possibilitou ainda identificar usuários com condições crônicas previamente não diagnosticadas, favorecendo o diagnóstico precoce e a inserção desses indivíduos no acompanhamento contínuo pela Atenção Básica. Entre as aferições de pressão arterial, 22 usuários (13,2%) apresentaram níveis normais (<120/80 mmHg). Outros 119 usuários (71,2%) apresentaram níveis compatíveis com hipertensão, sendo 58 pacientes classificados no estágio 1 e 61 no estágio 2. Além disso, 8 usuários (4,8%) apresentaram valores sugestivos de possível urgência hipertensiva (≥180 mmHg e/ou ≥110 mmHg). Em relação à glicemia capilar, 41 usuários (24,8%) apresentaram valores ≥200 mg/dL, dos quais 10 (6,0%) ≥300 mg/dL, incluindo valor máximo de 468 mg/dL 25 usuários (15,1%) apresentaram valores entre 141–199 mg/dL e 1 usuário (0,6%) apresentou hipoglicemia (<70 mg/dL). Foram realizados 200 testes rápidos (50 para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C), com 1 resultado reagente para HIV, 1 para sífilis e 1 para hepatite B (2% cada), sem casos reagentes para hepatite C. No componente de imunização, aplicaram-se 23 doses de vacinas, sendo 8 dupla bacteriana, 7 hepatite B, 3 tríplice viral, 4 febre amarela e 1 antirrábica. Os casos que apresentaram alterações clinicamente relevantes foram encaminhados para confirmação diagnóstica e acompanhamento na rede básica de saúde, conforme avaliação do enfermeiro. Os resultados reforçam o papel estratégico da APS na prevenção de agravos, promoção da saúde e fortalecimento do cuidado comunitário.
A reorganização do cuidado em espaço comunitário de grande circulação demonstrou-se estratégia eficaz para ampliar o acesso aos serviços de saúde e fortalecer a resolutividade da APS. Os resultados evidenciaram o alcance dos objetivos propostos, com ampliação das ações preventivas, identificação precoce de agravos e fortalecimento do vínculo entre equipes de saúde e população. O trabalho colaborativo entre profissionais da ESF e da eMulti favoreceu a integração multiprofissional, qualificando o processo assistencial e ampliando a oferta de cuidados, inclusive no rastreio das infecções sexualmente transmissíveis. A experiência revelou como principais aprendizados a importância da atuação territorializada, da busca ativa em espaços de convivência comunitária e da articulação entre diferentes categorias profissionais. Recomenda-se a continuidade da estratégia e sua incorporação periódica ao planejamento local em saúde, visando ampliar cobertura e monitoramento de condições crônicas e agravos evitáveis. A proposta apresenta elevado potencial de replicabilidade em outros territórios com feiras ou eventos comunitários, podendo ser adaptada conforme especificidades locais. Seu baixo custo operacional, aliado ao uso de recursos já disponíveis na rede, favorece a sustentabilidade da ação e reafirma a Atenção Primária como coordenadora do cuidado e promotora da saúde no território.