Tema: GESTÃO E PLANEJAMENTO DO SUS
Autor(a)
AMANDA SOUZA BARBOSA
Coautor(es)
Maíra dos Santos Albuquerque
Francisco Abraão de Oliveira
Bárbara Hellen Gomes Coelho
Kellany de Fátima Alves Gondim
Marcionília de Araújo Lima Neta
Ana Paula Praciano Teixeira
A garantia do direito à saúde pressupõe sistemas capazes de promover acesso oportuno, resolutivo e equânime aos serviços, especialmente por meio do fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS). Entretanto, persistem desigualdades territoriais que dificultam o acesso da população, sobretudo em áreas rurais e localidades distantes dos centros urbanos. Nessas realidades, barreiras geográficas, limitações de deslocamento e concentração de serviços na sede municipal comprometem a universalidade e a equidade no SUS (FRANCO LIMA GIOVANELLA, 2020 STRASSER, 2003). Nesse contexto, o município de Acaraú, Ceará, com população estimada em 64.806 habitantes distribuída em 36 territórios, sendo 27 na zona rural e 9 na zona urbana, apresenta importantes desafios para o acesso oportuno aos serviços ofertados pela Secretaria Municipal de Saúde. Em muitos territórios rurais, o deslocamento até a sede ocorre por transporte complementar, nem sempre acessível à população, o que reforça a necessidade de estratégias descentralizadas. Diante desse cenário, o projeto Secretaria Itinerante foi implantado em 2025 como estratégia de aproximação entre gestão, serviços e comunidade, levando atendimentos, orientações e escuta qualificada diretamente aos territórios rurais, com foco na ampliação do acesso e no fortalecimento dos princípios de universalidade e equidade no SUS.
● Descrever o fluxo organizacional e o funcionamento do projeto Secretaria Itinerante nos territórios rurais de Acaraú ● Identificar os serviços ofertados pela iniciativa e sua articulação com as necessidades das comunidades atendidas ● Analisar os efeitos da presença da gestão no território sobre o acesso da população aos serviços de saúde e sobre a aproximação entre gestão, equipes e comunidade.
Trata-se de experiência desenvolvida pela Secretaria Municipal de Saúde de Acaraú-CE, implantada em julho de 2025 e mantida em execução, com foco na descentralização das ações institucionais para ampliação do acesso da população rural aos serviços de saúde. A estratégia institucional adotada consistiu na realização do projeto Secretaria Itinerante em territórios rurais com maiores dificuldades de deslocamento até a sede municipal, especialmente localidades mais distantes e regiões limítrofes. O desenho operacional da experiência compreendeu definição prévia do território a ser contemplado, planejamento da ação pela gestão municipal, mobilização da comunidade pelas Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) e divulgação do cardápio de serviços por canais institucionais. As ações ocorreram com periodicidade mensal e envolveram a presença da gestão de saúde no território, articulada com equipes da Atenção Primária à Saúde e outros setores da rede municipal. Durante a execução, foram ofertados serviços como avaliação para cirurgia, agendamento de exames de apoio diagnóstico, incluindo ultrassonografia, radiografia, eletrocardiograma e eletroencefalograma, coleta de exames laboratoriais, consultas especializadas e ações de vigilância em saúde, com destaque para atividades relacionadas ao controle de zoonoses e endemias, incluindo agendamento de atendimentos no Castramóvel. Outro componente central da iniciativa foi a escuta qualificada das demandas da população no próprio território, com mediação de encaminhamentos e soluções pela gestão municipal. Para análise da experiência, consideraram-se os registros produzidos no desenvolvimento das ações e o quantitativo de atendimentos realizados até o momento. A sistematização contemplou a caracterização do funcionamento do projeto, os serviços ofertados e os efeitos observados sobre o acesso da população, a aproximação entre gestão, equipes e comunidade e a identificação de necessidades locais de saúde.
A implementação do projeto Secretaria Itinerante evidenciou resultados concretos na ampliação do acesso da população rural aos serviços ofertados pela Secretaria Municipal de Saúde de Acaraú. Até o momento, a iniciativa possibilitou o atendimento de 592 pessoas em diferentes comunidades, demonstrando a demanda existente por ações descentralizadas em territórios marcados por barreiras geográficas e dificuldades de deslocamento até a sede do município. Observou-se que a presença da gestão municipal de saúde no território, associada à oferta direta de serviços e à mobilização prévia da comunidade, favoreceu maior aproximação entre população, equipes de saúde e gestão, contribuindo para a identificação de necessidades locais e para a facilitação do acesso a procedimentos diagnósticos, consultas especializadas, coleta de exames laboratoriais e ações de vigilância em saúde. Entre os serviços mais demandados, destacaram-se os agendamentos de exames de apoio diagnóstico, como ultrassonografia, radiografia e eletrocardiograma, além dos encaminhamentos para avaliação cirúrgica. Outro resultado relevante foi o fortalecimento da escuta qualificada no próprio território, permitindo mediação mais ágil de encaminhamentos e respostas a demandas identificadas durante as ações. Adicionalmente, a inclusão de atividades relacionadas ao controle de zoonoses e endemias, com agendamento de atendimentos no Castramóvel, ampliou o alcance da vigilância em saúde junto às comunidades atendidas. Em conjunto, esses achados apontam evidências de melhoria no acesso, maior sensibilidade da gestão às especificidades territoriais e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde em áreas rurais.
A experiência do projeto Secretaria Itinerante evidencia que a descentralização das ações da gestão municipal de saúde para os territórios rurais constitui estratégia relevante para reduzir barreiras de acesso e aproximar os serviços das populações mais distantes da sede municipal. A iniciativa ampliou o acesso a procedimentos diagnósticos, consultas especializadas, coleta de exames laboratoriais e ações de vigilância em saúde, além de fortalecer a escuta qualificada das demandas da população no próprio território. Os resultados alcançados demonstram o cumprimento dos objetivos propostos ao evidenciar maior aproximação entre gestão, equipes de saúde e comunidade, bem como maior sensibilidade institucional às necessidades locais. Como principais aprendizados, destacam-se a importância do planejamento articulado com a Atenção Primária à Saúde, da mobilização comunitária realizada pelas Agentes Comunitárias de Saúde e da presença da gestão no território como elemento qualificador da tomada de decisão e da organização do cuidado. A experiência apresenta potencial de replicação em municípios com extensas áreas rurais e desafios de deslocamento, tendo sua sustentabilidade relacionada à integração entre gestão, equipes e comunidade, com otimização dos recursos já existentes na rede municipal.