Tema: MODELO DE ATENÇÃO À SAÚDE
Autor(a)
CAMILA AUGUSTA DE OLIVEIRA SA
Coautor(es)
PAULA ANANDA MENDES SILVA
HILARIA ALCANTARA PINTO
A presente experiência teve como objetivo o atendimento compartilhado de crianças com TEA, com a Terapeuta Ocupacional e a Nutricionista, com intuito de melhorar a seletividade alimentar que poderia estar relacionada à Disfunção do Processamento Sensorial (DPS), já que crianças com DPS podem apresentar aversão a certas texturas, temperaturas, cheiros ou sabores dos alimentos, tornando a alimentação um grande desafio. Os atendimentos foram realizados em Maracanaú, Ceará, desde julho até dezembro de 2024, com atendimentos semanais, intercalando atividades com diferentes texturas, cores e cheiros, além de orientações para a família. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) caracteriza-se por dificuldades significativas na interação social, na comunicação, na rigidez cognitiva, na seletividade alimentar, dentre outros(Muratori, 2014). Conforme Ayres (1979) e Dunn (2001), a integração sensorial é descrita como um mecanismo neurofisiológico responsável por organizar, interpretar, processar e regular as informações recebidas pelos sistemas sensoriais. Esses sistemas incluem o visual, olfativo, gustativo, tátil, auditivo, vestibular e proprioceptivo. Quando esse processamento sensorial não é interpretado de forma adequada pelo cérebro, ocorre a Disfunção do Processamento Sensorial (DPS) que pode se manifestar com uma hipersensibilidade, hiporresponsividade e/ou problemas de discriminação sensorial, podendo impactar nos níveis de sua participação em atividades como alimentação.
• Analisar a relação entre seletividade alimentar e a disfunção do processamento sensorial em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) • Expor diferentes aspectos sensoriais (textura, temperatura, sabor, consistência, temperatura, dentre outros) • Incentivar o brincar simbólico, em que a criança vivencia com seu corpo os cuidados básicos e passa a realizar com um terceiro • Orientar a família quanto a organização da rotina diária • Aumentar o repertório alimentar.
A estratégia utilizada foi o atendimento compartilhado de crianças com TEA, que apresentam seletividade alimentar, visando melhorar a sensibilidade (tátil, gustativa, olfativa, visual e auditiva) e consequentemente ampliar o repertório alimentar. A intervenção teve como foco o trabalho com diferentes texturas, cores e cheiros, alimentos crus, coloridos, com diferentes formatos de avião e flor, massinha, bolinhas de gel, amoeba, dentre outros para que a criança pudesse explorar. O estudo foi realizado em formato experimental, com aplicação de avaliações, seguida da aplicação de diversas atividades, onde a terapeuta ocupacional trabalhava a combinação variada e gradativa do sistema sensorial, enquanto a nutricionista orientava quanto à variação do repertório alimentar, em cima do que a criança gostava, para posteriormente ampliar o repertório. E como resultado da experiência, mensuramos a diminuição da hipersensibilidade, a ampliação do repertório alimentar, evolução cognitiva, através do simbolismo e do faz de conta. As fontes de dados utilizadas para a experiência incluíram avaliações, registros de atendimentos nos relatórios e o relato das mães.
Por fim, cabe destacar a contextualização das experiências em brincadeiras simbólicas que permitiram que M. também evoluísse cognitivamente, ampliando o repertório da brincadeira de modo a atingir o simbolismo e o faz-de-conta. Os principais resultados da experiência demonstraram impactos significativos na qualidade do trabalho da Terapeuta Ocupacional em conjunto com a Nutricionista. Durante a alimentação, um dos principais desafios relacionados ao processamento sensorial é lidar com múltiplos estímulos, como a textura, o sabor, o cheiro, a aparência dos alimentos e os sons produzidos durante a mastigação. Para crianças com TEA e DPS, essas dificuldades podem comprometer a acessibilidade de uma quantidade adequada de alimentos, bem como a tolerância a diferentes texturas, consistências e temperaturas. Como forma de defesa, muitos evitam permanecer sentados durante as refeições, o que pode comprometer o aspecto prazeroso e social da alimentação. Foi identificada alteração significativa no Perfil Sensorial, principalmente nos sistemas que estão relacionados com a alimentação, confirmando as dificuldades sensoriais de crianças com TEA e sua interface com seletividade alimentar. O tratamento de terapia ocupacional com abordagem de integração sensorial obteve resultados favoráveis na aceitação dos alimentos e diminuição da seletividade.
Conclui-se que as alterações sensoriais estão diretamente relacionadas às dificuldades alimentares, demonstrando que a seletividade alimentar pode ter origem sensorial e pode ser superada por meio da terapia de integração sensorial. A terapia de Integração Sensorial, voltada para a seletividade alimentar, permitiu a modulação dos sistemas sensoriais, possibilitando que a criança ampliasse suas experiências sensoriais, o que, posteriormente, refletiu na facilidade tátil oral. Antes de trabalhar diretamente o sistema gustativo, é essencial preparar os outros sistemas sensoriais para reduzir a resistência e aumentar a aceitação alimentar. Então, para que a criança aceite experimentar um novo alimento, é fundamental percorrer um caminho que envolva diversas etapas, como interagir com o alimento, observar, cheirar, tocar, explorar de forma lúdica, provar e, por fim, consumir. Esse processo exige uma ressignificação do momento da alimentação para que a criança se sinta segura. Desta forma, neste relato de experiência, uma intervenção por meio da integração sensorial possibilitou o avanço do desenvolvimento sensório-motor da criança, resultando em impactos significativos no seu processo alimentar.