Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
HIONARA MARIA VASCONCELOS
Coautor(es)
Danielle Samira Vasconcelos Araújo
Evaldo Eufrásio Vasconcelos
Emilio Carlos Furlani
Ingride Clara Silva Rocha
Leticia Ribeiro Azevedo
Juliana Ruthe Brandão Souza
Mariane Silva dos Santos
Naira Júlia Vasconcelos Menezes
Gabriela Silveira Nascimento
A Estratégia Saúde da Família (ESF) constitui um espaço central na Atenção Primária à Saúde, permitindo um cuidado centrado na pessoa e na comunidade, voltado à promoção da saúde e à prevenção de doenças. A integração das Práticas Integrativas e Complementares (PICs), como meditação, fototerapia, biodança, quiropraxia e automassagem, fortalece o autocuidado e a autonomia dos indivíduos, tornando o cuidado mais participativo e educativo. Além disso, o reconhecimento da ancestralidade, especialmente em comunidades quilombolas, valoriza saberes culturais e tradicional, promovendo um cuidado humanizado que integra dimensões emocionais, simbólicas e espirituais à saúde. A conjugação de PICs, autocuidado e ancestralidade não substitui o conhecimento científico, mas amplia o campo do cuidado, fortalecendo vínculos entre profissionais e comunidade, aumentando a adesão aos tratamentos e criando espaços de escuta e acolhimento. Apesar desses avanços, persistem desafios, como o predomínio do modelo biomédico, que limita o tempo para ações educativas e comunitárias, e fragilidades estruturais do SUS que dificultam a continuidade das práticas de promoção da saúde. Dessa forma, a integração dessas abordagens possibilita um cuidado mais humano, inclusivo e culturalmente conectado, promovendo saúde de forma integral e respeitando a singularidade de cada pessoa. Nesse contexto, nasceu o “Projeto Território e Cuidado: O saber da ancestralidade com ênfase nas práticas integrativas, uma iniciativa voltada a promover um cuidado integrado as Práticas Integrativas Complementares buscando fortalecer o autocuidado e a promoção da saúde a população Cruzense remanescente de Quilombolas, residentes na localidade Caiçara de Baixo.
Promover um cuidado integral na Estratégia Saúde da Família, integrando as Práticas Integrativas e Complementares ao processo de trabalho em enfermagem, de modo a fortalecer o autocuidado, ampliando a compreensão do processo saúde-doença e qualificando as ações de promoção da saúde no território.
A metodologia foi desenvolvida no contexto da Estratégia Saúde da Família, articulando ações de cuidado, educação em saúde e valorização dos saberes tradicionais da comunidade. Adotou-se uma abordagem qualitativa e participativa, centrada no protagonismo dos usuários, na promoção do autocuidado e na integração das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde ao cotidiano da equipe, fortalecendo o cuidado integral e culturalmente sensível. As ações ocorreram entre 2023 e 2025 com famílias remanescentes de quilombolas da localidade Caiçara de Baixo, zona rural de Cruz–CE, área de abrangência da ESF de Caiçara. A equipe atende 1.918 pessoas cadastradas no Sistema de Informação da Atenção Primária à Saúde, sendo 16 quilombolas, entretanto total geral somam 46 indivíduos. Participaram homens e mulheres, com predominância de mulheres negras/pardas, majoritariamente donas de casa e trabalhadoras autônomas, com ensino fundamental incompleto. A renda familiar é, em geral, de até um salário mínimo, oriunda de programas sociais e de atividades como artesanato, pesca e agricultura. As ações foram realizadas na Unidade Básica de Saúde, na praça e na escola local, fortalecendo o vínculo com o território e ampliando o acesso da população. Inicialmente, realizou-se a caracterização do território, com levantamento das principais demandas de saúde, práticas culturais e saberes ancestrais. Essa etapa incluiu observação participativa, visitas domiciliares, escuta sensível, conversas informais e análise de dados territoriais, possibilitando compreender como os sujeitos vivenciam o processo saúde-doença em seu contexto sociocultural. Em seguida, promoveu-se escuta qualificada através de rodas de conversa e atendimentos individuais. Posteriormente, foram desenvolvidas ações educativas e práticas integrativas, individuais e coletivas, conduzidas de forma compartilhada pela equipe multiprofissional. As atividades incluíram massoterapia, biodança, quiropraxia, uso de plantas medicinais, homeopatia, práticas corporais e momentos de valorização da ancestralidade, respeitando os saberes e práticas da comunidade. A avaliação ocorreu de forma contínua, com base em relatos dos participantes, observação do engajamento, registros em prontuários e reuniões de equipe. A análise qualitativa dessas informações permitiu identificar avanços, desafios e possibilidades de aprimoramento, garantindo a adequação das ações às necessidades do território e a qualificação do cuidado ofertado.
Houve resultados satisfatórios e melhora na qualidade de vida dos indivíduos, sendo assim as práticas integrativas complementares em saúde (PICS) buscam o equilíbrio entre corpo e mente permitindo um acompanhamento holístico dos usuários do SUS. Vale destacar que essas práticas não substituem o tratamento convencional, mas ajudam na promoção de suade e prevenção de agravos. A quiropraxia contribuiu para a redução da dor, com foco no alinhamento da coluna vertebral e das articulações, além de promover melhora da mobilidade e correção postural. Observou-se também diminuição do uso de medicamentos analgésicos entre os participantes. A biodança apresentou efeitos relevantes na redução do estresse, fortalecimento do vínculo afetivo e aumento da vitalidade. Também foram identificadas melhora da autoestima, relaxamento corporal e desenvolvimento da coordenação motora, além de favorecer o acolhimento e a integração entre os participantes. As terapias comunitárias destacaram-se pelo fortalecimento do vínculo social e pela valorização das histórias de vida dos participantes, contribuindo para o resgate do amor próprio. Esses espaços possibilitaram escuta qualificada, sem julgamentos, além do compartilhamento de estratégias de superação, construção de redes de apoio e realização de rodas de conversa horizontais, sem hierarquias. A massoterapia mostrou-se eficaz na redução de dores relacionadas ao estresse, especialmente cefaleias tensionais, além de contribuir para a diminuição do uso de medicamentos. A prática também favoreceu o relaxamento e o bem-estar, associado à liberação de endorfinas. Dessa forma, evidencia-se a relevância da inserção das PICS na Atenção Primária à Saúde como estratégia potente para o cuidado integral, humanizado e culturalmente sensível.
A integração das Práticas Integrativas e Complementares (PICs) à atuação da Estratégia Saúde da Família (ESF) representa um avanço importante na construção de um cuidado integral, humano e culturalmente sensível. Ao considerar o autocuidado como ferramenta central na promoção da saúde e reconhecer a ancestralidade como parte fundamental da identidade e dos saberes das comunidades, é possível ampliar o olhar sobre o processo saúde-doença e fortalecer o protagonismo dos indivíduos em suas trajetórias de vida. As ações realizadas demonstram que a articulação entre saberes tradicionais e conhecimentos científicos é essencial para qualificar a assistência em enfermagem. A escuta ativa, o vínculo, o respeito às memórias e práticas culturais, somados ao uso de técnicas integrativas, favorecem um cuidado acolhedor, capaz de atender às necessidades singulares de cada usuário. O envolvimento da equipe multiprofissional fortalece a capacidade de resposta da ESF, ampliando o repertório de práticas disponíveis e promovendo uma visão de saúde que ultrapassa o modelo biomédico convencional, tornando o cuidado mais participativo, inclusivo e conectado à realidade do território.