Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Olímpia Maria Freire de Azevedo
Coautor(es)
Roberto Wagner Júnior Freire de Freitas
Juliana Barcelos Barbosa Pelúcio
Isabelle Penha Rodrigues
Érica Sueanne Gonçalves Dias Linhares
Andressa Oliveira Braz Dias
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui a principal porta de entrada e coordenadora do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo responsável pela organização das redes de atenção e garantia dos atributos essenciais do cuidado. Apesar de seus avanços, persistem desafios relacionados à heterogeneidade do desempenho entre equipes, limitações estruturais e fragilidades nos processos de trabalho, impactando diretamente os indicadores assistenciais. No município de Caucaia (CE), organizado em seis distritos sanitários, identificou-se a necessidade de qualificar a gestão, fortalecer a resolutividade e melhorar o desempenho das equipes nos indicadores do Novo Financiamento da APS, monitorados pelo Sistema de Informação da Atenção Primária à Saúde (SIAPS). Nesse contexto, foram implantadas as Unidades de Atenção Primária à Saúde – Modelo (UAPS-M), uma em cada distrito, definidas por critérios técnicos como vulnerabilidade social, densidade populacional e capacidade instalada. Essas unidades foram estruturadas como polos organizadores do cuidado no território. A estratégia tem como público-alvo equipes de saúde, gestores e população adscrita, buscando ampliar o acesso, qualificar o cuidado e melhorar o desempenho nos indicadores estratégicos da APS
Objetivo geral Apresentar a experiência de implantação das UAPS-M como estratégia de qualificação da Atenção Primária à Saúde no município de Caucaia–CE. Objetivos específicos Avaliar o impacto da implantação das UAPS-M no desempenho das equipes nos indicadores do Novo Financiamento da APS. Analisar a evolução dos componentes Vínculo e Acompanhamento Territorial e Qualidade do cuidado a partir do SIAPS. Descrever as mudanças na organização dos processos de trabalho e na oferta de serviços. Evidenciar o potencial de replicabilidade da estratégia em outros contextos municipais.
Trata-se de um relato de experiência sobre a implantação das Unidades de Atenção Primária à Saúde – Modelo (UAPS-M) no município de Caucaia (CE), no âmbito da APS. Foram implantadas seis UAPS-M, uma em cada distrito sanitário: UAPS Dr. Joaquim Braga (Planalto Caucaia), UAPS Valdenuzia Moreira (Pacheco), UAPS João Marcolino (Sítios Novos), UAPS Rocilda Pontes (Rocilda), UAPS Antônio Jander Pereira Machado (Araturi) e UAPS Giselda Magalhães (Potira II), selecionadas com base em critérios técnicos, incluindo vulnerabilidade social, densidade populacional, regionalização e capacidade instalada. As UAPS-M foram concebidas como unidades estruturantes da APS, mantendo integralmente seus atributos essenciais (acesso, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado) e ampliando sua capacidade resolutiva no território. Diferenciam-se das unidades convencionais por apresentarem: (i) maior densidade de equipes (ii) presença de gerência local responsável pela organização dos processos de trabalho (iii) ampliação qualificada da carteira de serviços, incluindo procedimentos ambulatoriais, exames e uso de telemedicina, dentro do escopo da APS (iv) estrutura física e tecnológica adequada (v) organização de fluxos assistenciais e regulação local das demandas e (vi) atuação como unidades de referência e apoio para as demais UAPS do distrito. As estratégias implementadas incluíram a qualificação da ambiência e dos recursos tecnológicos, reorganização dos processos de trabalho, implantação de protocolos assistenciais, ampliação da oferta de serviços e fortalecimento da integração com a rede de atenção. Os fluxos assistenciais foram reorganizados com foco na ampliação do acesso, melhoria da resolutividade e fortalecimento da coordenação do cuidado pela APS. O monitoramento dos resultados foi realizado por meio do Sistema de Informação da Atenção Primária à Saúde (SIAPS), analisando os componentes Vínculo e Acompanhamento Territorial (CVAT) e Qualidade do cuidado. O primeiro quadrimestre de 2025 foi considerado como linha de base, e os quadrimestres subsequentes utilizados para avaliação dos efeitos da intervenção.
A análise integrada dos componentes Vínculo e Acompanhamento Territorial (CVAT) e Qualidade do cuidado, a partir dos dados do Sistema de Informação da Atenção Primária à Saúde (SIAPS), permitiu avaliar a evolução das equipes vinculadas às Unidades de Atenção Primária à Saúde – Modelo (UAPS-M) em comparação às demais unidades do município. No componente CVAT, o Quadrimestre 1 (Q1/25), correspondente à linha de base pré-intervenção, evidenciou desempenho inferior das equipes das UAPS-M em relação às demais unidades, com média de Nota Final de 4,76, comparada a 5,64 nas demais UAPS. Após a implantação das UAPS-M, observou-se evolução progressiva, com aumento para 5,01 no Quadrimestre 2 (Q2/25) e 6,01 no Quadrimestre 3 (Q3/25). A principal variação ocorreu na dimensão acompanhamento, que passou de 2,94 para 3,82, indicando melhoria nos processos de trabalho relacionados ao vínculo e à longitudinalidade do cuidado. Nas demais unidades, também houve evolução (5,64 → 5,98 → 6,76), porém observa-se redução da diferença entre os grupos ao longo do tempo, sugerindo efeito positivo da intervenção. No componente Qualidade, por sua vez, o cenário inicial foi distinto. No Q1/25, as UAPS-M apresentaram desempenho semelhante ao das demais unidades (4,80 vs 4,79), indicando equivalência na linha de base. Nos quadrimestres subsequentes, observou-se evolução em ambos os grupos, com as UAPS-M alcançando 5,15 no Q2/25 e 5,63 no Q3/25. Destaca-se que, embora a evolução no componente Qualidade tenha ocorrido de forma paralela entre os grupos, houve redução da diferença ao longo do tempo (0,30 no Q2 para 0,12 no Q3), indicando tendência de convergência. Esses achados evidenciam que a implantação das UAPS-M contribuiu para a reorganização dos processos de trabalho na APS, com impacto direto nos indicadores monitorados pelo SIAPS e tendência de redução das desigualdades entre as unidades do município.
Os resultados sugerem que a implantação das UAPS-M atuou como uma intervenção organizacional relevante no fortalecimento da Atenção Primária à Saúde, com impacto diferenciado entre os componentes avaliados. No componente Vínculo e Acompanhamento Territorial, observou-se evolução progressiva das equipes vinculadas às UAPS-M, com destaque para a dimensão acompanhamento, elemento central na consolidação dos atributos da APS, especialmente a longitudinalidade e a coordenação do cuidado. O desempenho inferior na linha de base pode ser interpretado como reflexo da priorização de territórios com maior vulnerabilidade, o que reforça a intencionalidade da estratégia. No componente Qualidade, a equivalência inicial entre os grupos indica que as fragilidades estavam mais relacionadas à organização do cuidado do que à qualidade assistencial. A evolução paralela sugere que a qualificação da qualidade depende de processos mais complexos e de maior maturação temporal. A análise integrada permite inferir que a intervenção atua inicialmente sobre a base organizacional da APS, criando condições para avanços subsequentes na qualidade do cuidado, em consonância com o modelo teórico da APS. Adicionalmente, a heterogeneidade observada reforça a necessidade de estratégias diferenciadas de apoio institucional. Nesse sentido, as UAPS-M se apresentam como uma inovação em gestão com potencial de indução de mudanças estruturais na APS, configurando-se como modelo replicável para outros municípios.