Autor(a)
Beatriz Lira de Oliveira
Coautor(es)
A obesidade é uma condição de saúde que aumentou de forma preocupante na última década. Mesmo com avanços de estudos e tecnologias em saúde, a adesão ao tratamento tradicional, baseado em dietas restritivas e exercícios físicos, ainda enfrenta desafios. Isso porque a abordagem prescritiva não promove mudanças comportamentais sustentáveis. A obesidade tem um caráter multifatorial, sendo resultado da interação entre fatores genéticos, sociais, de estilo de vida e emocionais. No entanto, a dimensão emocional frequentemente é negligenciada por muitos profissionais de saúde (Magallares, 2016). A ausência de técnicas que auxiliem a mudança de comportamento representa um dos principais desafios para um tratamento eficaz e duradouro. A abordagem comportamental busca reconhecer e compreender o contexto do paciente, identificando comportamentos disfuncionais, crenças e aspectos emocionais ligados à alimentação. Essa abordagem usa estratégias para melhorar a relação do paciente com a comida e, consequentemente, auxiliar na perda de peso (Alvarenga, 2019). Em Maracanaú, de acordo com dados do SISVAN (2022), 72% da população adulta avaliada apresentava sobrepeso ou obesidade. Parte desses pacientes já recebiam acompanhamento nutricional, mas devido à alta prevalência da condição, uma nova estratégia foi adotada por uma nutricionista: utilizar a abordagem comportamental nos atendimentos nutricionais.
Geral: Relatar a experiência do uso da abordagem comportamental durante o tratamento e acompanhamento nutricional de pessoas com sobrepeso e obesidade em uma unidade de atenção básica. Específicos: Implantar a abordagem comportamental no acompanhamento nutricional dos pacientes. Aumentar a adesão ao tratamento através das estratégias comportamentais. Promover melhora na relação com a comida.
Trata-se de um relato de experiência, baseado na atuação e vivências de uma nutricionista da equipe multiprofissional VI do Município de Maracanaú, entre abril de 2022 e março de 2024, onde começou-se a utilizar a abordagem comportamental no tratamento de pacientes com sobrepeso e obesidade, onde esses não tinham resultados significativos na perda de peso. Os atendimentos foram realizados em cinco unidades básicas de saúde da AVISA VI, em Maracanaú-CE. O público atendido era composto por adolescentes, adultos e idosos de ambos os sexos, totalizando 636 pacientes com sobrepeso e obesos nesse período. Os dados da experiência e resultados da aplicação da abordagem foram coletados a partir das observações e escutas feitas durante os atendimentos, as falas dos pacientes e os resultados de perda de peso que foram registrados em diários de trabalho e em prontuário eletrônico. A análise foi realizada com base nesses registros e associadas às experiências vivenciadas na prática clínica.
Como havia sido observado a alta prevalência de pacientes com sobrepeso e obesidade e que apresentavam dificuldades na adesão ao plano alimentar, buscou-se entender os fatores que impactavam essa adesão e foi identificado a alta ocorrência de queixas relacionadas à ansiedade. Muitos pacientes relataram episódios de exagero alimentar, nos quais comiam sem fome física, mas como resposta ao estresse e à ansiedade. Diante desse cenário, a anamnese passou a incluir perguntas específicas sobre aspectos emocionais da alimentação, como “como você percebe que está comendo por ansiedade?”, “como se sente nesses momentos de exagero?” ou “quais alimentos você come nesses momentos?”. Assim, facilitou-se a identificação de estratégias comportamentais adequadas. As principais técnicas utilizadas foram: entrevista motivacional, diário alimentar, plano de metas, mindful eating, técnicas de relaxamento e a "meditação do chocolate". Além disso, foi desenvolvido um material educativo sobre fome emocional e como lidar com ela. A experiência demonstrou-se positiva pois a adesão a abordagem foi satisfatória, com muitos pacientes relatando melhora na relação com a comida. Eles passaram a reconhecer a diferença entre fome física e emocional e desenvolveram estratégias alternativas para lidar com momentos de ansiedade. Como consequência, houve melhor adesão ao plano alimentar e redução do peso corporal, devido à diminuição dos episódios de comer emocional.
Os achados desse relato indicam que a abordagem comportamental na consulta nutricional teve impacto positivo nos pacientes com sobrepeso e obesidade. A utilização de técnicas como entrevista motivacional, comer com atenção plena, diário alimentar e meditação do chocolate contribuiu para a melhora da fome emocional e para o desenvolvimento de uma relação mais equilibrada com a comida. Além disso, os pacientes conseguiram implementar estratégias alternativas ao ato de comer em resposta à ansiedade, favorecendo um processo de emagrecimento mais sustentável. Dessa forma, a abordagem comportamental se mostrou uma estratégia eficaz para o tratamento da obesidade e deve ser incentivada nas consultas nutricionais na atenção básica, considerando a influência significativa da fome emocional no comportamento alimentar dos pacientes. Sugere-se que mais estudos devem ser realizados para comprovar esses achados.