Autor(a)
Sarah Anne Silveira Sampaio
Coautor(es)
O aumento da obesidade, sem desaparecimento da desnutrição, caracteriza o contexto atual de transição nutricional com dupla carga de má nutrição. Essa situação foi agravada pela conjuntura da pandemia de COVID-19, que denunciou e intensificou o cenário crítico da Insegurança Alimentar. A obesidade é considerada problema de saúde pública devido ao aumento de sua prevalência, impacto negativo na saúde física e mental de indivíduos acometidos e risco de desenvolvimento de doenças crônicas. O acompanhamento dessa situação pela Atenção Primária à Saúde (APS), nível de atenção que tem o papel de suprir pelo menos 85% da resolubilidade do Sistema Único de Saúde (SUS), evita agravos que sobrecarregam o Sistema com tratamentos onerosos realizados na atenção especializada. Para executar intervenções efetivas nesse sentido, é imprescindível conhecer o perfil da população. Desta forma, foram realizadas análises para caracterizar o estado nutricional dos habitantes de Icapuí-CE no período de janeiro a dezembro de 2023. Ademais, não existem pesquisas publicadas dessa avaliação no município em questão. Assim, a motivação desse estudo é subsidiar a organização da atenção nutricional e desenvolvimento de ações que possam modificar o cenário encontrado.
Avaliar e diagnosticar o perfil nutricional da população do município de Icapuí-CE nas diferentes fases do ciclo da vida.
Trata-se de um estudo de abordagem quantitativa. A análise foi feita a partir dos dados peso e altura aferidos pelas equipes da Atenção Primária à Saúde (APS) em atendimentos individuais e atividades coletivas e inseridos nos sistemas de informação utilizados pela APS, que migram automaticamente para o Sistema Nacional de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN). Dentre as estratégias para garantir um número representativo, foram realizadas avaliações nutricionais coletivas nas escolas e centros educacionais infantis do município, uma parceria intersetorial entre Saúde e Educação. Foram gerados relatórios públicos via SISVAN para monitoramento do estado nutricional e montagem do perfil da população, considerando os respectivos indicadores de referência utilizados para diagnóstico nutricional em cada fase do ciclo da vida. Os parâmetros utilizados foram: Índice de Massa Corporal (IMC) por Idade para crianças e adolescentes IMC por semana gestacional para gestantes e IMC para adultos e idosos, respeitando as diferentes classificações para as fases do ciclo da vida.
Foram avaliadas 7.309 pessoas no cotidiano da APS em 2023, garantindo uma amostragem significativa de 34,10%, visto que Icapuí possui 21.433 habitantes, segundo o último censo do IBGE, realizado em 2022. A relevância desse percentual dialoga com a importância de um número que represente a característica total da população estudada. Em relação às crianças de 0 a 5 anos incompletos, 3,16% se encontraram na classificação magreza acentuada 3,64% em magreza 47,27% em eutrofia 20,78% em risco de sobrepeso 13,37% em sobrepeso e 11,78% em obesidade. Na faixa etária de 5 a 10 anos incompletos, os percentuais encontrados foram 1,31% para magreza acentuada 3,17% para magreza 50,82% eutrofia 18,25% sobrepeso 15,08% obesidade e 11,37% obesidade grave. No grupo de adolescentes (10 a 20 anos incompletos) os achados foram de 1,06% referentes a magreza acentuada 3% magreza 56,62% eutrofia 21,74% sobrepeso 14,01% obesidade e 3,57% obesidade grave. A classificação de gestantes de todas as idades apontou 14,08% com baixo peso 30,99% adequado ou eutrófico 21,13% sobrepeso e 33,08% obesidade. Os adultos do município (20 a 60 anos incompletos) se caracterizaram pela maior quantidade de pessoas avaliadas, sendo 1,32% com baixo peso 23,09% adequado ou eutrófico 36,22% sobrepeso 25,25% obesidade grau I 9,12% obesidade II e 5% obesidade III. Por fim, os idosos (acima de 60 anos) apresentaram os seguintes números: 14,10% baixo peso 35,07% adequado ou eutrófico e 50,83% sobrepeso.
A situação expressiva encontrada no município, principalmente em relação ao excesso de peso, chama atenção para um cenário que urge por intervenções. A viabilidade destas, perpassa pela presença e atuação de equipe multiprofissional completa e em quantidade de profissionais suficiente para uma abordagem ampliada, levando em consideração a complexidade e as causas multifatoriais do excesso de peso e obesidade. Destaca-se a importância de nutricionistas na gestão da Vigilância Alimentar e Nutricional e na assistência para realizar um trabalho direcionado e efetivo, desde o diagnóstico e planejamento estratégico até o acompanhamento longitudinal das pessoas acometidas pela condição e o desenvolvimento de ações de promoção à saúde, bem como avaliação e monitoramento a longo prazo.