Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
FRANCISCO VALDICÉLIO FERREIRA
Coautor(es)
TAMIRES ALEXANDRE FÉLIX
LILIANE NARA DE SIQUEIRA BASTOS
SUELY RIBEIRO TORQUATO
BRUNA QUEIROZ ALLEN PALACIO
HELENA ALVES DE CARVALHO SAMPAIO
FRANCISCA DANIELA DE OLIVEIRA BARROS
POLLYANA DIAS PARENTE
ISABELLY DAMASCENO PONTE
A Vigilância Alimentar e Nutricional (VAN) configura-se como estratégia estruturante para o monitoramento das condições de saúde e dos padrões alimentares no âmbito do Sistema Único de Saúde. A presente experiência foi desenvolvida na Atenção Primária à Saúde de um município do interior do Ceará, envolvendo equipes da Estratégia Saúde da Família, profissionais de diferentes categorias e integração com programas assistenciais e de transferência de renda. O público-alvo abrangeu crianças, gestantes, adultos, idosos e beneficiários de programas sociais, contemplando diferentes ciclos de vida e vulnerabilidades. A iniciativa emergiu da necessidade de qualificar o monitoramento do estado nutricional e do consumo alimentar frente ao avanço da transição nutricional, caracterizada pela coexistência de excesso de peso e práticas alimentares inadequadas. Sua implementação possibilitou a consolidação de uma base de dados robusta, o fortalecimento do processo de trabalho das equipes e a ampliação da capacidade de análise situacional, subsidiando a tomada de decisão e o planejamento de ações mais resolutivas no território.
Objetivo geral: Analisar, qualificar e fortalecer as ações de Vigilância Alimentar e Nutricional na Atenção Primária à Saúde, com foco na ampliação da cobertura, na melhoria da qualidade dos registros e no uso estratégico das informações para o planejamento em saúde. Objetivos específicos: monitorar o estado nutricional por faixa etária e ciclo de vida avaliar padrões de consumo alimentar e marcadores de alimentação saudável e não saudável acompanhar indicadores de aleitamento materno exclusivo e continuado analisar a cobertura de programas sociais e de suplementação de micronutrientes identificar vulnerabilidades nutricionais e subsidiar a tomada de decisão e o desenvolvimento de ações de educação alimentar e nutricional no território.
Trata-se de relato de experiência, de abordagem descritiva, desenvolvido a partir da implementação qualificada das ações de Vigilância Alimentar e Nutricional na Atenção Primária à Saúde. Foram utilizados dados secundários provenientes de sistemas oficiais, com destaque para o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional e sistemas de gestão de programas sociais. As estratégias envolveram avaliação antropométrica sistematizada (peso, altura e índices derivados), registro de consumo alimentar por meio de marcadores, monitoramento de indicadores de aleitamento materno e acompanhamento das condicionalidades de saúde. As ações foram executadas por equipes multiprofissionais da Estratégia Saúde da Família, integrando atendimentos individuais, atividades coletivas, ações educativas e visitas domiciliares. O fluxo organizacional contemplou coleta, registro, consolidação, análise e utilização dos dados para o planejamento das intervenções. Destaca-se a articulação intersetorial, a padronização de instrumentos e a qualificação dos profissionais, favorecendo a organização do processo de trabalho e a tomada de decisão baseada em evidências no âmbito da gestão e da assistência.
Observou-se elevada cobertura do acompanhamento de beneficiários de programas sociais, com percentuais superiores a 94% ao longo do ano, ultrapassando a meta pactuada e evidenciando a efetividade das estratégias adotadas. Entre crianças, verificou-se alta proporção de registros nutricionais e de vacinação em dia, indicando qualificação do cuidado e fortalecimento das ações na Atenção Primária. A prevalência de aleitamento materno exclusivo foi de 62% em menores de seis meses e de aleitamento continuado de 69,3% entre crianças de 6 a 24 meses, refletindo avanços nas ações de promoção e apoio à amamentação. Contudo, identificou-se introdução precoce de alimentos ultraprocessados em parte significativa das crianças, apontando desafios persistentes. O perfil nutricional revelou elevada frequência de excesso de peso, sobretudo em adultos, confirmando o cenário de transição nutricional. Entre gestantes, observou-se alta cobertura de pré-natal, porém com lacunas no registro de dados nutricionais. No Programa de Suplementação de Vitamina A, verificaram-se baixas coberturas, especialmente na segunda dose, evidenciando fragilidades operacionais. Os resultados demonstram impacto positivo na organização da assistência e na produção de informações estratégicas.
A experiência demonstra que a qualificação das ações de Vigilância Alimentar e Nutricional potencializa a gestão do cuidado, fortalece o uso estratégico da informação e amplia a capacidade de resposta da Atenção Primária à Saúde frente aos desafios nutricionais contemporâneos. Destacam-se a elevada cobertura, a integração das equipes e a organização do processo de trabalho como elementos centrais para o sucesso da iniciativa. Apesar dos avanços, persistem desafios relacionados à alimentação inadequada na infância, à qualificação dos registros nutricionais e à ampliação da cobertura de programas de suplementação. A experiência apresenta alto potencial de replicabilidade em outros contextos, sustentabilidade no âmbito do SUS e contribui para o fortalecimento das políticas públicas de alimentação e nutrição.