Tema: ATENÇÃO BÁSICA
Autor(a)
Mirella Lima Marques
Coautor(es)
Mayanara Rocha Teles
Lívia Rocha Matos
Liana Mara Rocha Teles
Gemakson Mikael Mendes
São Gonçalo do Amarante-CE fica a 59km da capital cearense, conta com ampla extensão territorial (834.394 km²) e é administrativamente divido em Sede, Praia e Sertão. Hoje, conta com 22 equipes da Estratégia Saúde da Família - ESF e 22 equipes de Saúde Bucal - eSF. O Sertão da cidade é caracterizado por comunidades longínquas (cerca de 54km da Sede), com povoados dispersos dentro do território adscrito à Unidade de Saúde. Sendo assim, a evasão às consultas odontológicas é um nó crítico para a atenção em saúde bucal. Dentre os principais fatores, estão as questões socioeconômicas e a dificuldade de transporte até a Unidade Saúde da Família - USF além dos sentimentos de medo e exposição do usuário nos espaços de saúde, inerentes ao período pós-pandêmico. Diante desse cenário, a equipe de saúde bucal da UAPS Raimunda Moreira Braga da região do Serrote (Sertão do município) desenvolveu estratégias de captação de usuários para a conscientização da prevenção e promoção da saúde bucal, através da visita domiciliar. Essa estratégia possui estreita consonância com os princípios da universalidade, integralidade, descentralização e equidade, consolidando a atenção em saúde bucal no SUS.
Apresentar o relato de experiência da visita domiciliar como estratégia de educação para promoção de saúde e forma de conscientizar e captar usuários para o tratamento odontológico na Unidade de Atenção Primária à Saúde -UAPS Raimunda Moreira Braga no distrito do Serrote em São Gonçalo do Amarante no Ceará.
A experiência se deu no mês de fevereiro de 2022, na UAPS Raimunda Moreira Braga, na localidade de Serrote, em São Gonçalo do Amarante-CE. Trata-se de uma Unidade relativamente nova, que iniciou as atividades em abril de 2021 e que, antes disso, tinha território pertencente a outra equipe, mais distante. Inicialmente, a equipe de saúde bucal da UAPS buscou mapear o território, percorrendo a microárea com maior índice de faltas, acompanhada do Agente Comunitário de Saúde local buscando identificar a população adscrita, bem como as suas maiores necessidades, anseios e dificuldades de acesso ao atendimento odontológico. As visitas domiciliares aconteceram no período da manhã e/ou tarde, sem um turno destinado previamente para essa atividade. Foi utilizada uma abordagem problematizadora, a fim de perceber como os pacientes realizavam asua higiene bucal. Utilizou-se também a escuta qualificada para acolher as demandas da comunidade. A partir daí a eSB realizou as orientações acerca da melhor técnica de escovação e dos cuidados que se deveria ter, além de estimular a busca por atendimento na UAPS. Além disso, durante as visitas domiciliares foram realizadas atividades de orientação em saúde bucal, aplicação de flúor e conscientização individual acerca da importância do tratamento odontológico preventivo e/ou curativo, na referida UAPS. Também foram distribuídos kits de higiene oral, contendo creme dental e escova de dentes, para incentivar o hábito diário de higienização bucal.
Através da escuta qualificada e acolhedora, a equipe percebeu que muitos usuários deixavam de buscar a unidade de saúde por acreditar que não precisavam buscar o atendimento se não estivessem sentindo dor. A falta de conhecimento da população acerca dos cuidados preventivos e a valorização do atendimento apenas quando houvesse algum sintoma ou alguma queixa bucal foi percebida em diversos discursos. A partir daí, a equipe de saúde bucal buscou desmistificar o atendimento odontológico, mostrando a importância dos cuidados preventivos e da consulta odontológica de rotina para identificação de possíveis necessidades e diagnóstico precoce de algumas lesões. Foi percebido através dos diálogos e dos relatos das famílias visitadas que esses momentos de interação com a comunidade estimularam a criação de vínculos profissional-paciente. A presença dos profissionais nos espaços sociais, e nas casas das famílias favorece a horizontalização das relações e estimula o cuidado compartilhado em saúde, além de empoderar o usuário através da corresponsabilização pela sua saúde. Destaca-se que os resultados obtidos se mostraram satisfatórios, pois essa estratégia refletiu no maior acesso da população visitada às consultas odontológicas, durante o mês de março de 2022.
Destaca-se que a visita domiciliar como estratégia de captação de pacientes e educação em saúde bucal na atenção primária à saúde é uma iniciativa inovadora e mostra-se bastante promissora. Entretanto ainda há muito a se desenvolver pois ela ainda é pouco adotada pelas equipes de saúde bucal (eSB) nos serviços em que estas estão inseridas. Percebe-se ainda uma supervalorização dos procedimentos odontológicos por parte das eSB, que historicamente são avaliadas por indicadores de desempenho clínico, motivo este que estimula que grande parte da atuação do dentista no dia a dia se restrinja ao consultório odontológico. Trata-se de uma estratégia de baixo custo e grande impacto para a promoção da saúde bucal, podendo ser aplicada em outros territórios e contextos.